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O Facebook e a eleição americana

O Facebook e a eleição americana

A prova de que Barack Obama é muçulmano e nasceu no Quênia. As taras sexuais de Bill Clinton em vídeo. O culto satânico de Hillary Clinton. O apoio do papa Francisco e do ator Robert de Niro à candidatura de Donald Trump. Todas essas notícias falsas partiram de mais de 140 sites obscuros, todos criados na Macedônia, para conquistar milhões de compartilhamentos no Facebook.

Depois da vitória de Trump, perguntaram a Mark Zuckerberg se a circulação de informações falsas na rede social poderia ter influído no resultado. Ele respondeu que 99% do que circula no Facebook é verdadeiro e, pela enésima vez, saiu-se com uma versão daquilo que sempre repete quando sua política editorial é posta em xeque: “Somos uma empresa de tecnologia, não de mídia”.

Tal afirmação é tão verdadeira quanto qualquer uma das frases que abre o primeiro parágrafo. O Facebook é hoje a maior empresa de comunicação do planeta, responsável pela distribuição de conteúdo a 1,8 bilhão de pessoas. Enquanto o usuário do Twitter vê tudo o que é publicado pelos perfis que segue e decide quem ou o que bloquear, no Facebook essa decisão não está nas mãos dele. É tomada pelo próprio Facebook.

Em maio, Zuckerberg foi obrigado a convocar uma reunião com comentaristas e ativistas conservadores, que acusavam o Facebook de suprimir seus conteúdos na área de “mais acessados”. Na semana passada, foi a vez de a esquerda apontar para a propagação das notícias falsas favoráveis a Trump como um dos fatores responsáveis pela derrota dela. A questão não se restringe à política: o Facebook já vetou fotos de mulheres amamentando ou a foto histórica do ataque de napalm no Vietnã.

A cada nova evidência de critérios editorais enviesados, falhos ou apenas sofríveis, o Facebook afirma que as decisões são tomadas automaticamente por software – como se ninguém programasse o algoritmo que alimenta os usuários. Depois das acusações de maio, a empresa atribuiu mais responsabilidade na seleção de notícias a um grupo de editores e adotou um manual de redação semelhante ao de qualquer jornal ou revista.

Embora os critérios adotados pelo algoritmo do Facebook continuem a ser um mistério, o principal fator que leva um conteúdo a ser mais distribuído é a sua repercussão. Apenas nesta semana, um comunicado revelou que passará a haver algum tipo de checagem sobre a veracidade. É isso mesmo: até a semana passada, o maior distribuidor de conteúdo do planeta não se preocupava em saber se aquilo que distribui é verdade, nem sequer acreditava que deveria ter algum tipo de responsabilidade dessa natureza.

O Facebook não é a única empresa do Vale do Silício com interferência decisiva no novo ecossistema de informação digital, sem cultura editorial compatível. Dias atrás o Google exibia, como primeiro resultado na busca pelos resultados das eleições americanas, um site com uma contagem de votos falsa, mostrando Trump à frente de Hillary na votação popular. Apenas nesta semana, também declarou que passará a verificar casos dessa natureza.

No Twitter, a proliferação de robôs interfere na propagação de notícias e alimenta uma rede de desinformação. De acordo com o site TwitterAudit, mais de 2 milhões de seguidores de Trump (14%) e 540 mil de Hillary (5%) são falsos. Durante as primárias, uma análise dos seguidores de Trump que se queixavam do rival Ted Cruz revelou que a maioria das mensagens vinha de perfis falsos, de acordo com uma reportagem na Atlantic.  

Não é preciso ser especialista em comunicação para entender que critérios editoriais orientados apenas pela quantidade de cliques, sem nenhum tipo de checagem de veracidade, identidade ou origem da informação, resultam num ambiente polarizado, em que partidários desta ou daquela linha ideológica se alimentam apenas daquilo que confirma seus pontos de vista. É como se vivessem numa bolha. Isso explica o sucesso não apenas dos sites mentirosos da Macedônia, mas também dos radicais racistas da alt-right, que contribuíram para a eleição de Trump, e de tantos outros aproveitadores dessa realidade.

BuzzFeed investigou os conteúdos partidários de maior repercussão no Facebook. Entre os três sites de orientação favorável a Trump, cerca de 38% veiculavam algum tipo de falsidade. Nos sites hiper-partidários favoráveis aos democratas, esse índice também foi altíssimo: 19%. Foi também o BuzzFeed que desmascarou a fábrica de sites mentirosos na Macedônia. A revolta nas redes sociais contra a “mídia tradicional” se tornou uma oportunidade para a propagação de mentiras, preconceito e desinformação. Não há como negar a responsabilidade determinante das próprias redes sociais pelo ambiente que criaram.

“Mais de um bilhão de pessoas confiam no Facebook como sua principal fonte de informação sobre o mundo, e neste momento estão mal-servidos”, escreveu Timothy Lee no Vox. “Ele precisa abraçar seu status como empresa de mídia e encontrar modos de melhorar a qualidade média das histórias que recomenda aos usuários.”

Como escrevi em maio, nada há de errado se o Facebook quiser adotar esta ou aquela orientação ideológica. A liberdade de imprensa lhe garante esse direito. Mas ele precisa entender que também faz parte da imprensa e precisa zelar pela veracidade do que é publicado. Precisa, enfim, adotar critérios editoriais transparentes e revelar, afinal, como seus algoritmos misteriosos escolhem aquilo que o internauta vê.

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